Perseverança dos Santos Parte 3

Perseverança dos Santos Parte 3: A Antiga Oliveira

Perseverança dos Santos Parte 3: A Antiga Oliveira

Esta passagem é bem semelhante em significado e aplicação como a passagem anteriormente discutida a partir do discurso de Cristo e, João 15. É bem possível que Paulo fosse familiar com o ensino de Cristo sobre a Videira e os ramos, e tinha Seu discurso em mente enquanto escrevia sobre a oliveira em Romanos 11:15-24:

Porque se sua rejeição é a reconciliação do mundo, o que será seu aceitação, se não vida dentre os mortos? E se as primícias são santas, a massa também é; e se a raiz é santa, os ramos também são. E se alguns dos ramos são quebrados, e sendo tu uma oliveira ruim, foste enxertado neles, e feito participante da raiz, e da nutrição da oliveira boa; Não te glories contra os ramos; e se contra eles te gloriares, lembra-te de que não és tu o que sustentas a raiz, mas é a raiz que te sustenta. Então tu dirás: Os ramos foram quebrados para que eu fosse enxertado. Certo; mas eles foram quebrados por causa da incredulidade, e tu estás de pé por causa da fé. Por isso, não te orgulhes, mas teme; Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, pode ser que ele também não te poupe. Observa, pois, a bondade e severidade de Deus; a severidade sobre os que caíram, mas a bondade sobre ti, se permaneceres na bondade; de outra maneira, tu também serás cortado. Porém também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque Deus é poderoso para enxertá-los de volta. Porque tu foste cortado da natural oliveira ruim, e contra a natureza enxertado na oliveira boa; quanto mais estes, que são os naturais, serão enxertados em sua própria oliveira. {Romanos 11:15-24 BLIVRE}

Esta passagem da Escritura é problemática para o Calvinismo em múltiplos níveis. Paulo está discutindo o estado de Israel por toda a extensão dos capítulos 9 a 11. Calvinistas creem que Rm 9:6-24 é um texto primário para suas doutrinas de eleição incondicional particular e reprovação irrevogável. Não é difícil chegar a tal entendimento do texto quando o restante do contexto de Rm 9-11 é ignorado. Esta tem sido a prática comum a muitos exegetas calvinistas. James White ignora completamente Rm 9:30-33 e Rm 11:15-32 em sua exegese de Romanos 9 em 'The Potter's Freedom'. Este é um comportamento estranho, especialmente quando consideramos que Rm 9:30-33 representa a conclusão de Paulo para seu argumento preliminar em Rm 9:1-29. Da mesma forma, Piper [The Justification Of God] e Schreiner [Still Sovereign] negligenciam em dar a Rm 11:15-32 qualquer tratamento exegético em seus trabalhos respectivos de Romanos 9 e eleição [Schreiner discute brevemente 11:23, 26, mas apenas a para o fim de demonstrar que a eleição é para salvação em Rm 9-11].

Paulo não mudou de assunto em Romanos 11:15-24. Ele ainda discute os judeus reprovados descritos anteriormente em Rm 9:6-24. O que ele disse concernente a esses judeus é incômodo para a interpretação calvinista de eleição incondicional e reprovação irrevogável. Paulo fala em termos de uma antiga oliveira. Esta árvore representa o verdadeiro Israel de Deus. É a eleição do povo de Deus em Cristo. A árvore não pode representar o Israel nacional dado o fato que muitos dos ramos [judeus] foram "quebrados" da verdadeira Israel e estão alienados à salvação em Cristo. Paulo, porém, mantém a esperança nestes judeus quebrados. Ele afirma claramente que eles podem ainda ser enxertados se não persistirem na sua incredulidade. Esta verdade se choca com a crença calvinista de que estes judeus descrentes foram reprovados devido a um decerto eterno e irrevogável. Se Paulo realmente ensinava tal conceito de reprovação em Romanos 9, então ele não poderia manter esperança por estes judeus em Romanos 11:23,30-32.

A dificuldade adicional que esta passagem coloca para o calvinismo é a plena declaração de Paulo de que aqueles que agora se mantêm na fé podem ainda assim serem quebrados mediante a descrença:

Então tu dirás: Os ramos foram quebrados para que eu fosse enxertado. Certo; mas eles foram quebrados por causa da incredulidade, e tu estás de pé por causa da fé. Por isso, não te orgulhes, mas teme; Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, pode ser que ele também não te poupe. Observa, pois, a bondade e severidade de Deus; a severidade sobre os que caíram, mas a bondade sobre ti, se permaneceres na bondade; de outra maneira, tu também serás cortado. {Romanos 11:19-22 BLIVRE}

Calvinistas tradicionalmente tentam resolver a dificuldade de duas maneiras. A primeira maneira é afirmar que os ramos não representam indivíduos, mas nações. Os ramos quebrados representam a nação de Israel, e os ramos enxertados representam os gentios como um grupo de pessoas. O problema com esta interpretação é que Paulo está claramente falando de ramos individuais que foram quebrados e enxertados no verdadeiro Israel de Deus. Os ramos claramente representam judeus individuais, porque nem toda a nação fora rejeitada. Existem judeus crentes [o remanescente] que permaneceram na oliveira. Os ramos enxertados representam indivíduos gentios como apenas os gentios crentes que vieram a desfrutar o favor e eleição de Deus. É somente crendo que os gentios podem ser chamados de descendentes espirituais de Abraão, e está alem de qualquer argumentação que nem todos os gentios se uniram a Cristo.

Joseph R. Dongell provê um excelente sumário:

Paulo distingue a chamada irrevogável da nação de Israel como um todo a partir do destino dos indivíduos israelitas. Enquanto o destino final do povo de Cristo é absolutamente certo, o futuro de cada indivíduo é determinado pela sua contínua fé e confiança em Deus. Gentios que creem são enxertados na antiga árvore, enquanto judeus que caem em descrença são quebrados. Desde que fé é a única condição para continuar enxertado, Paulo emite tanto um alerta quanto uma esperança. Por um lado, aqueles gentios que recentemente foram recentemente enxertados na antiga árvore mediante a fé devem humildemente se guardar contra a queda em descrença, desde que eles também poderiam ser arrancados da árvore. Por outro lado, os ramos naturais jogados ao chão podem "ser anexados em sua própria oliveira" se "não persistirem na incredulidade" (Rm 11:23-24). Em outras palavras, o destino do povo de Deus como um todo é inalterado ao longo das eras, apesar de cada ramo individual participar da salvação apenas se ele permanecer enxertado pela fé (Jo 15:5-6). Como Paul Achtemeier explica, Paulo ensina destino sem ensinar determinismo individual. [Walls and Dongell, Why I Am Not A Calvinist, page 87]

Parece que a interpretação do texto que exclui a individualidade dos ramos é bem difícil de sustentar.

A segunda explicação calvinista é a usual de que os ramos quebrados só podem representar falsos convertidos e hipócritas que jamais tiveram a fé salvífica para começar. Esta interpretação é impossível de se sustentar dado o fato que Paulo fala de tais ramos como presentemente permanecendo pela fé. Se é a fé que os faz "permanecer" então ela tem que ser genuína. É por causa da sua presente fé que eles podem ser ditos estar na oliveira eleita. Paulo ademais confirma isto quando alerta estes gentios, que foram enxertados pela fé, que eles podem ainda ser quebrados se eles não "continuarem na Sua bondade". Eles continuam entre o corpo eleito enquanto elas permanecerem na fé. Se elas não continuarem, então Deus irá tratá-las da mesma maneira que os judeus descrentes que foram quebrados antes deles. Eles também seriam cortados "pois não há parcialidade com Deus". Se os ramos que Paulo alerta representam falsos convertidos, eles jamais estariam na árvore em primeiro lugar. Como então eles poderiam ser quebrados?

Talvez possamos adicionar uma terceira interpretação. Talvez alguns diriam que Paulo está meramente apresentando uma construção hipotética e alertando estes ramos de impossibilidades. Que efeito possível tal alerta levaria para aqueles que não podem possivelmente ser vítimas das consequências? Se os ramos permanecem pela fé, e aqueles que começam na fé inevitavelmente continuarão na fé [de acordo com o calvinismo], então por que alertá-los a continuar com o temor de serem cortados fora? Se Deus causa os crentes a continuar na fé, então alertá-los a continuar é sem sentido. Se Deus infalivelmente preserva o crente, e fé é um dom que não podemos ajudar mas nele continuar; então alertar alguém a continuar na fé seria tão inútil quanto a advertir alguém que está ligado a um respirador a "continuar respirando".

Alguns dirão que as advertências são os meios de Deus pelos quais Ele assegura a perseverança de Seus santos. Onde então está a doutrina da segurança eterna? Podemos ser verdadeiramente convencidos de que estamos eternamente seguros, e também tomando as advertências de queda seriamente? Se estamos eternamente seguros então não há perigo de ser cortado da verdadeira Israel de Deus. Se o perigo é real, então não há segurança incondicional. Se nós formos a nossa caixa de correspondências e encontrarmos uma nota na qual se lê, "Não abra esta caixa, ou um tigre de 270 quilos irá emergir e te devorar", deveríamos tomar tal advertência seriamente? Deveria tal impossível consequência realmente nos preocupar e nos prevenir de pegar nossas cartas?

Parece, então, que o calvinismo falha em oferecer uma solução válida para o ensino claro de Rm 11:15-24 que aqueles que se permanecem em fé podem ainda ser quebrados para sua própria ruína eterna. Vamos levar a sério o enfático alerta de Paulo: "Por isso, não te orgulhes, mas teme; Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, pode ser que ele também não te poupe. Observa, pois, a bondade e severidade de Deus; a severidade sobre os que caíram, mas a bondade sobre ti, se permaneceres na bondade; de outra maneira, tu também serás cortado. {Romanos 11:20-22 BLIVRE}"


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Título Original Perseverance Of The Saints Part 3: The Ancient Olive Tree
Autor kangaroodort
Link Original https://arminianperspectives.wordpress.com/2007/10/31/perseverance-of-the-saints-part-3-the-ancient-olive-tree/
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Perseverança dos Santos Parte 2

Perseverança dos Santos Parte 2: A Videira e Os Ramos

Perseverança dos Santos Parte 2: A Videira e Os Ramos

Antes de examinarmos João 15, quero dar um esboço geral de como eu imagino essa série se desdobrando. Começarei examinando aquilo que eu considero ser as cinco passagens da Escritura que eu creio que ensinam o mais claramente que verdadeiros crentes podem cometer apostasia (Jo 15:1-6; Rm 11:18-23; Hb 6:4-8,10:26-39; 2 Pe 2:20-22). Iremos então observar as passagens mais usadas pelos advogados da perseverança inevitável para verificar se eles realmente ensinam tal doutrina. Finalmente, vamos descobrir qual entendimento da perseverança se conforma melhor com o que a Bíblia ensina acerca da segurança da salvação.

Em Jo 15:1-6 se lê:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Todo ramo que em mim não dá fruto, ele o tira; e todo o que da fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado. Estai em mim, e eu em vós; como o ramo de si mesmo não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim vós também não, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca-se; e os colhem , e os lançam no fogo, e ardem.{João 15:1-6 BLIVRE}

Jesus está falando diretamente aos Seus discípulos que já estão nEle. Eles estão limpos (podados). Sua situação atual não está em questão. Eles são ramos atados à videira verdadeira (verso 5). É muito importante entender que Jesus está falando de indivíduos salvos. Eles têm vida porque estão atados à fonte da vida. Jesus não está falando sobre como alguém pode vir a estar nEle (ser salvo). Ele está falando da importância de permanecer nEle. Algumas traduções, como a Young's Literal Translation, traduzem "estar" como "permanecer". Também pode-se entender como "continuar". Os ramos na videira verdadeira devem permanecer nEle para que continuem a desfrutar da vida eterna que flui dEle. Ninguém pode ter vida fora de Cristo. O crente permanece em Cristo mediante a fé e continuará a produzir frutos da fé e vida enquanto ele permanecer em Cristo. Quando um galho cessa em permanecer (mediante a fé), como indicado pela ausência de frutos, ele é cortado. Eis uma vívida e concisa figura da natureza da apostasia. O apóstata não é alguém que jamais esteve na videira, mas alguém que não permaneceu na videira. Apenas crentes verdadeiros podem ser ditos estar genuinamente na videira. Nenhum descrente pode ser dito estar "em Cristo".

Esta passagem mina a definição calvinista de apostasia. Jesus não fala daqueles que jamais estiveram nele. Ele não está falando acerca da igreja visível. Ele está falando acerca daqueles que estavam na videira verdadeira, que é o próprio Cristo: "Eu sou a videira verdadeira". Os ramos da videira verdadeira só podem ser crentes verdadeiros. Falsos professores não podem ser ditos estar na videira verdadeira.

O calvinista está correto ao afirmar que o ramo cortado representa um descrente. A questão relevante não é se o ramo que foi cortado é um descrente ou não, mas se este descrente era anteriormente um crente que estava na "videira verdadeira" ou não. É impossível concluir de outra forma quando nós permitimos Cristo definir Seus próprios termos.

As objeções calvinistas não se sustentam pelas seguintes razões:

  1. Jesus define a Si Mesmo como a videira verdadeira e os ramos como estando "em Mim". Robert Shank aponta bem o absurdo de insistir que Jesus está falando de Si Mesmo apenas como a igreja visível:

    Incapazes de negar que os 'ramos' definham e são lançados fora, os proponentes da segurança incondicional se encontram na necessidade de 'definir' os ramos. Bispo Ryle portanto contende que "não se pode mostrar que 'um ramo em Mim' deve significar um crente em Mim. isto significa nada aleḿ de 'um membro professante de Minha Igreja, um homem junto à companhia de Meu povo, mas não junto a mim." Tal contenção é necessária, claro, se alguém está a defender a doutrina da segurança incondicional. Mas alguns de nós acham difícil conceber Jesus dizendo a seus apóstolos 'Eu sou a videira, e todos vocês que são os membros de minha Igreja e estão juntos à companhia de meu povo apesar de não necessariamente estarem juntos a Mim, são os ramos em Mim.' (Life In The Son, pg.45)

Ele então cita outra tal "definição" de ramos:

Semelhantemente, Hengstenberg cita Lampe ao falar 'Em um certo sentido até os hipócritas podem ser ditos estar em Cristo, parcialmente porque, no relacionamento externo da Igreja, eles partilham do sacramento da união com Cristo, e portanto se ostentam a si mesmos de estarem em Cristo; parcialmente porque eles são estimados por outros por ser como se pertencessem ao corpo místico, ou pelo menos são tolerados na comunhão externa dos discípulos". Mas, novamente, é difícil conceber Jesus dizendo 'Eu sou a videira, e todos aqueles que partilham do sacramento no relacionamento externo da Igreja e que portanto se ostentam de estar em Mim e são estimados por outros como se fossem do corpo místico, ou pelo menos são tolerados na comunhão externa dos discípulos, são os ramos'(ibid. 45, ênfase dele)

Ele finaliza citando João Calvino:

Semelhantemente, numa tentativa de reconciliar esta passagem com sua teologia, Calvino declara que ' ... muitos são supostos estar na videira, de acordo com a opinião dos homens, que na realidade não tem raiz na videira.' Verdadeiro, mas irrelevante. Pois Jesus não fala das opiniões dos homens, mas sobre realidades solenes -- sobre as coisas como elas são, não como os homens podem imaginar que sejam. Afirmamos firmemente que qualquer definição dos ramos que não possa ser facilmente inserida no discurso do Salvador sem um sentido de flagrante incompatibilidade é obviamente inadmissível. E novamente, é impensável que Cristo deva dizer 'Eu sou a videira, e todos os que são supostos estar em mim de acordo com a opinião dos homens, alguns deles não tendo raiz na videira, são os ramos'. (ibid. 45,46)

Estou de pleno acordo com a conclusão de Shank:

Tais definições arbitrárias dos ramos, ridículas como são, não obstante são inevitáveis para todos que negam que Jesus ensinou que homens que são verdadeiros crentes podem em última análise abandonar a fé e falhar em continuar nEle, sendo assim, arrancados e ressecados, e finalmente queimados (ibid, 46)
  1. Jesus está falando daqueles que cessam de "permanecer" nEle, e não dos que jamais foram dEle em primeiro lugar. É absurdo pensar que um ramo pode ser cortado ou lançado da videira à qual jamais estava junto.
  2. Jesus está diretamente abordando Seus discípulos que eram verdadeiramente salvos.
  3. O ramo que é "lançado fora" da vinha é dito "murchar" ou "secar" antes de ser lançado ao fogo. É sem sentido falar de um ramo já morto e seco (como seria o caso de um hipócrita ou falso convertido) secando ou murchando. Tais coisas só são ditas de ramos que uma vez possuíram vida. O faro de um ramo murchar é claro indicativo que ele alguma vez possuiu vida. A única maneira pela qual um ramo pode uma vez ter vivido foi mediante o ser ligado à videira (Jesus Cristo -- a única fonte de vida espiritual).

Conclusão: parece que quando permitimos ao texto falar por si mesmo, devemos nos submeter à realidade da apostasia. Devemos igualmente concluir que a apostasia dita nesta passagem tem referência a a verdadeiros crentes abandonando a fé e sendo removidos da videira. A concepção calvinista de apostasia (deixar algo que jamais se você foi parte verdadeira) é incompatível com a linguagem clara do discurso de Jesus. Robert Shank bem afirmou, "Vamos aceitar pelo valor de face a grave e amorosa advertência de nosso Salvador que é de fato possível a nós perder a vida eterna falhando em continuar nEle 'que é nossa vida' "(ibid. 46)


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Título Original Perseverance Of The Saints Part 2: The Vine And The Branches
Autor kangaroodort
Link Original https://arminianperspectives.wordpress.com/2007/10/18/perseverance-of-the-saints-part-2-the-vine-and-the-branches/
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Perseverança dos Santos Parte 1

Perseverança dos Santos Parte 1: Definições

Perseverança dos Santos Parte 1: Definições

Minha próxima série de posts lidará com o tópico da perseverança. Perseverança dos Santos é representada no calvinismo pela letra P da TULIP. A maioria dos calvinistas repousa seu entendimento da perseverança na certeza da eleição incondicional eterna. Aqueles que foram eleitos desde a eternidade para salvação não podem falhar em perseverar até o fim e alcançarão destino de vida eterna que Deus decretou para eles. Alguns calvinistas também repousam tal doutrina na natureza da expiação. Este fundamento é problemático e pretendo explorá-lo em posts futuros.

Uma distinção é necessária no que concerne as diferentes maneiras como a perseverança é entendida entre os diversos pontos de vista doutrinários. Creio que estes pontos de vistas caem em três categorias, como se segue:

Perseverança no Arminianismo: Arminianos creem que é necessário para o redimido perseverar na fé salvífica a fim de atingir a vida eterna no porvir [salvação final]. Mantemos que crentes verdadeiros que experimentaram a regeneração genuína pode de fato cair da fé e perecer eternamente. Tomamos as palavras de Jesus em Mateus 10:22 literal e seriamente: "E sereis odiados por todos por causa de meu nome; mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo." Mantemos que é responsabilidade do crente continuar na fé salvífica, enquanto reconhecendo a dependência da graça e o poder de Deus em realizar isto.

Perseverança no Calvinismo: calvinistas, bem como arminianos, creem que é necessário para o redimido perseverar na fé salvífica a fim de atingir a vida eterna no porvir [salvação final]. Eles creem que aquele que é verdadeiramente salvo não pode falhar em perseverar na fé salvífica. Ele não negará que alguns parecem cair, mas mantêm que os os verdadeiramente regenerados jamais cairão da fé e salvação.

Eles dirão que apostasia somente demonstra que a profissão de fé de alguém não era genuína e que o "apóstata" jamais fora verdadeiramente regenerado pra início de assunto. A deserção do "apóstata" simplesmente revela que sua conversão inicial era espúria. O calvinista, então, entenderá Mt 10:22 como significando "Aqueles que são [verdadeiramente] salvos irão [por necessidade] perseverar até o fim". Por esta razão prefiro chamar o entendimento calvinista de perseverança de "perseverança inevitável".

Perseverança entre calvinistas "moderados": eu me refiro aqui àqueles que essencialmente descontam a necessidade de perseverança de qualquer tipo acerca da salvação final. Esta posição é mantida por um espectro vasto de cristãos evangélicos hoje em dia. É difícil dizer como eles devem ser chamados. Enquanto muitos se afirmam calvinistas moderados, outros provavelmente rejeitam tal rótulo. Ele é geralmente dado por aqueles que consideram a si mesmos arminianos em qualquer outra área significativa da soteriologia. Poderíamos chamar eles de calvinistas de um ponto [mantendo o P da TULIP] ou arminianos de 4 pontos. Esta visão é especialmente proeminente entre os Batistas do Sul e é avidamente promovida por professores bem conhecidos como Charles Stanley, Chuck Swindoll e Tony Evans. Este entendimento de perseverança ensina que uma vez que uma pessoa põe fé salvífica em Jesus Cristo, nada pode mudar o destino eterno desta pessoa. Ele mantém que um crente verdadeiro pode retornar a uma vida de malignidade, morrer num estado de não-arrependimento, e ainda assim ser salvo ao fim. Este ponto de vista chega a afirmar que um verdadeiro crente pode depois repudiar a fé, morrer em descrença, e ainda ter sua entrada no Reino Eterno de Deus garantida [com consideravelmente menos recompensas celestiais, ou nenhuma]. Esta visão de perseverança cunhou o termo "cristão carnal" que é definida como cristãos cujos estilos de vida em nada podem ser distinguidos das vidas malignas dos não-regenerados.

Em meus próximos posts examinarei escrituras importantes para determinar quais das definições acima de perseverança se encaixa melhor com o relato bíblico.


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Título Original Perseverance Of The Saints Part 1: Definitions
Autor kangaroodort
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Perseverança dos Santos por Kangaroodort (INDEX)

Perseverança dos Santos por Kangaroodort (INDEX)

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CONCLUSÃO (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Conclusão

Conclusão

Então, para resumir, de acordo com a interpretação agostiniana/calvinista, que assume fé em Cristo para salvação e surgiu em oposição ao pelagianismo e à Igreja Católica Medieval:

Paulo começa o trecho angustiado pelo fato de Israel fracassar em vir à salvação pela fé em Cristo(Rm 9:1-5). A resposta de Paulo é que nem todos os de Israel são Israel – isto é nem todo israelita é eleito (Rm 9:6). Paulo demonstra que a prerrogativa de Deus eleger quem ele quer, mostrando a eleição de Isaque sobre Ismael e de Jacó sobre Esaú (Rm 9:7-13). Deus tem misericórdia apenas de quem Ele escolhe ter misericórdia, e endurece os restantes, como exemplificado por Faraó (Rm 9:14-18). Neste ponto, Paulo imagina um interlocutor que articula a disputa arminiana: se Deus escolheu endurecer alguém como Faraó, como pode Deus então julgá-lo pelo que ele estava predestinado a fazer?(Rm 9:19) Paulo repreende o interlocutor pela sua impiedade, e usa a alegoria oleiro-barro para reiterar que Deus tem o direito de eleger alguns e reprovar outros como Ele julgar conveniente (Rm 9:20-21). Paulo então acrescenta, como argumento de apoio, o fato de que quando Deus escolhe reprovar alguém como Faraó, ele tem que suportar pacientemente seu pecado e arrogância, mas o faz a fim de demonstrar Sua Glória aos eleitos, que acabam por estar tanto entre gentios como também entre judeus (Rm 9:22-24). Ele, portanto, traz a discussão de volta à questão da incredulidade dos judeus em Cristo, da qual sua discussão sobre a eleição foi uma digressão.

A partir deste ponto, o restante do capítulo é tratado com relação à questão judeu-gentio e a salvação pela fé, em oposição às obras, sem referência explícita à eleição (versos 25 a 33).

A presente interpretação que apresentamos aqui reconhece a significativa mudança de paradigma que ocorre no primeiro século em respeito à identidade do povo de Deus. Ela contrasta com a visão tradicional em termos de manter em mente durante todo o texto as questões dominantes dos judeus e da salvação pela fé.

Ela inicia, como antes, com Paulo angustiado pelo fracasso de Israel em vir à fé em Cristo (Rm 9:1-5). Ele tem que enfrentar a oposição judaica que, se o Evangelho estivesse correto, isto acarretaria que as promessas de Deus aos judeus haviam falhado. Sua resposta é que as promessas de Deus não falharam, mas outros estão herdando-as, porque nem todo Israel é Israel – ou seja, nem todo Israel seguira Abraão em fé (Rm 9:6). Descendência étnica de Abraão não é o suficiente para ser considerado "filho de Abraão", como os exemplos de Ismael e Esaú demonstram; A Israel já foram concedidas bênçãos imerecidas, comparando com outros descendentes de Abraão (Rm 9:7-13). Portanto Deus não é injusto se ele agora está excluindo os descendentes de Jacó que não vêm em fé, porque qualquer um que ele abençoa, mesmo Moisés, é um objeto de Sua misericórdia (Rm 9:14-16). Deus pode optar por poupar um tempo até mesmo para alguém como Faraó, que Deus escolheu endurecer – sabendo que ele mesmo iria se endurecer em resposta ao desafio de Deus – a fim de Deus glorificar-Se a Si mesmo mediante aquela pessoa, o que pode ser visto tanto como um exemplo de misericórdia tanto quanto de endurecimento de Deus (Rm 9:17-18). A implicação é que foi os judeus receberam misericórdia no passado, mas não há garantia de misericórdia no futuro se eles não vierem à fé em Cristo. O interlocutor hipotético pergunta por que Deus ainda culpa os judeus, se foi Ele quem os endureceu (Rm 9:19), recusando-se a reconhecer que os judeus foram endurecidos bem como Faraó o fora, pela sua própria recusa obstinada em se arrepender. Paulo então os repreende, e usa a metáfora oleiro-barro para ilustrar que Deus sempre tratou Israel na base de seu arrependimento, e são apenas aqueles que se recusam a arrepender-se que contra-argumentam que foi Deus que os fez ser como são (Rm 9:20-21). Paulo então argumenta que Deus tem de lidar pacientemente com os "objetos de ira" – os incrédulos – a fim de tornar sua glória conhecida aos "objetos de misericórdia" – aqueles que vêm à fé, e que ele especificamente identifica como vindos tanto não apenas dentre os judeus mas também dentre os gentios (Rm 9:22-24). As citações-suporte de Isaías e Oseias esclarecem o ponto: que muitos daqueles que os judeus pensavam estar excluídos da aliança (os gentios) ao final estavam sendo incluídos, enquanto muitos dos que os judeus achavam estar inclusos na aliança (eles mesmos) estavam na verdade excluídos (Rm 9:25-29). A base segundo a qual os gentios foram incluídos e os judeus não é explicitada em Rm 9:30-33: é que os gentios estão obtendo a justificação mediante a fé, enquanto os judeus a perseguem pelas obras.

Prós e Contras

Pode-se argumentar contra esta interpretação que a tradicional é mais simples e direta do texto em Romanos, e que ela não endereça assuntos do judaísmo étnico ou justificação pela fé, nenhum dos quais é referenciado de modo claro na passagem (Rm 9:14-23). Para tal, podemos responder que a interpretação tradicional é mais simples em virtude da maior familiaridade com ela, e porque assume certas interpretações das citações do Antigo Testamento que são simples mas demonstravelmente falsas, uma vez que o contexto é devidamente compreendido. O assunto do judaísmo étnico domina Rm 9-11, e portanto pode ser seguramente assumido de uma passagem que não o referencie explicitamente, enquanto a justificação pela fé é o tema dominante da Missiva aos Romanos como um todo, e é a rejeição dos israelitas pela justificação mediante a fé que provoca a presente discussão. Por outro lado, a interpretação tradicional lê o texto pressupondo a eleição incondicional individual, que é uma doutrina discutível, certamente não sendo um tema presente em Romanos de 1 a 8, e não seguindo de Romanos 9:25.

Em essência, Paulo está falando do Israel étnico algo muito próximo do que os intérpretes reformados veem. Ele está falando a eles que Deus tem o direito de escolher quem ele quer para estar entre o povo da aliança. Mas ele não está falando isto a eles porque Deus escolheu não eleger a maioria deles. Ele está falando isto porque o paradigma de inclusão no povo da aliança mudou, do Israel que seguia a Lei para qualquer um que venha à fé em Cristo. Israel se sentiu enganada por esta mudança de paradigma, logo Paulo explica que Deus não tem obrigação nenhuma para os descendentes físicos de Abraão; de fato, Paulo demonstra pelo Antigo Testamento que seu relacionamento com Israel sempre foi à base de arrependimento.

OBJETOS DE IRA E DE MISERICÓRDIA (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Objetos de ira e de misericórdia

Objetos de ira e de misericórdia

Sugerir que o propósito do barro é determinado e inalterável do ponto de vista divino vai de encontro à forma como esta alegoria é usada no restante da Escritura: "E se Deus, querendo mostrar sua ira, e dar a conhecer seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição?"(Rm 9:22). Novamente, assume-se aqui que os "objetos de ira" são os não-eleitos, representados por Faraó, Ismael e Esaú. Mas no contexto dos capítulos de 9 a 11, o principal interesse de Paulo é que os judeus não estão vindo a Cristo. Os "objetos de ira", então, são a maioria da nação de Israel. A paciência com a qual Deus tem suportado eles reflete Seu desejo de vê-los arrependidos (Rm 2:4). Não obstante, enquanto eles permanecem como objetos de ira, recusando-se a arrepender-se, eles são preparados para a destruição. "Preparado para a destruição" ecoa Provérbios 16:4:

O Senhor fez tudo para um fim; sim, até o ímpio para o dia do mal. {Provérbios 16:4 Almeida Recebida}

Mas "os perversos" não são necessariamente uma categoria estática: o desejo de Deus é que eles "se arrependam e vivam (Ez 18:23; 30-32).

“E {se Ele fez isto} para que também desse a conhecer as riquezas de sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória?" {Rm 9:23}

Uma das razões pelas quais Deus tolera os perversos – mesmo aqueles que ele pré-conhece que não se arrependerão – é para fazer conhecidas "as riquezas de sua glória". Podemos racionalmente perguntar como a paciência de Deus alcança este propósito. Podemos facilmente entender como o julgamento de Deus alcançaria isto, demonstrando aos "objetos de misericórdia" o justo julgamento do qual eles foram resgatados. Mas isto não explica como a paciência de Deus em retardar Seu julgamento alcança isto. Talvez isto simplesmente exalta a Soberana Majestade de Deus – Ele não precisa amedrontar ou "fazer alguma coisa" com os perversos: seu fim já está assegurado. Mas parece mais razoável reconhecer que os "objetos de sua misericórdia" são neste momento "objetos de ira" (Ef 2:3) mas escaparam de tal ira mediante o arrependimento e a fé. Para eles, certamente, as "riquezas de Sua Glória" são realmente reveladas, porque eles reconhecem que só pela misericórdia de Deus durante sua vida pregressa de rebelião é que eles receberam esperança de salvação. Portanto, as categorias "objetos de ira" e "objetos de misericórdia" são dinâmicas, não estáticas. A inclusão de um indivíduo nestas categorias é baseada na resposte deste mesmo indivíduo à oferta da graça. [1]

No verso seguinte, Paulo torna-se mais explícito na sua identificação dos "objetos de misericórdia". Eles são "nós, a quem ele também chamou, não só dentre os judeus mas também dentre os gentios" (Rm 9:24). Aqui Paulo explicitamente volta ao tema original (Rm 1-6), apoiando a ideia as qual que ele jamais se afastou. A ofensa aos judeus é que Deus está agora abertamente chamando pessoas dentre os gentios, bem como aquelas dentre os judeus que aceitaram a fé em Cristo. Paulo sustenta seus comentários a partir de mais citações do Antigo Testamento. Ele cita Oseias 2:23 e 1:10 no sentido de que aqueles que anteriormente não eram incluídos na nação da aliança seriam incluídos entre aqueles que ele chama "meu povo". Ademais, ele cita Isaías 10:22-23 e 1:9 no sentido de os salvos dentre Israel seriam apenas o "remanescente".

Em outras palavras, para aqueles judeus que se valiam da etnia e aderência à Lei para sua inclusão entre o povo de Deus, Paulo mostra a partir das próprias Escrituras Hebraicas que eles não tinham razão alguma para contar com isto. Portanto, ele sumariza seu próprio argumento nos versos 30 a 32. "Os gentios, que não procuravam a justiça, a obtiveram". De que maneira? "Pela fé". Paulo deixa claro que é este o critério, esta é a questão: gentios estão vindo à justificação pela fé. Israel, entretanto, adotou "uma lei de justiça ... não pela fé mas como que pelas obras". A questão não é que Deus soberanamente escolheu apenas uns poucos judeus mas muitos gentios; a questão é que Israel rejeitou a fé como a característica determinante da nação da aliança, em favor de continuar a confiar na Lei. Portanto, o dom gratuito da salvação pela fé em Cristo é uma pedra de tropeço para os que não creriam, mas "aquele que nela confia não será envergonhado" (Rm 9::33, citando Is 8:14, 28:16).


[1]Certamente, tudo isto levanta a questão de se e como os réprobos são habilitados a vir à fé em Cristo. Se eles não o são, à parte da aplicação da graça irresistível destinada somente aos eleitos, então a posição calvinista se mantém mesmo com esta interpretação. Uma discussão detalhada das passagens relevantes de Efésios 2 está fora do âmbito deste estudo; porém, é discutível que os dois primeiros capítulos de Efésios também tratam do relacionamento entre judeus e gentios, como é deixado claro no restante do livro, e que o ponto de Paulo em Efésios 2 é identificar os crentes judeus ("nós também", Ef 2:1) com os gentios (destinatários) em sua comum experiência de serem "mortos em delitos e pecados" antes da conversão, se referência específica de como a conversão fora efetuada.

O OLEIRO E O BARRO (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

O Oleiro e o Barro

O Oleiro e o Barro

Então, o interlocutor se pergunta "Por que Deus ainda nos culpa?" A disputa dos intérpretes reformados sempre foi que se os arminianos estivessem corretos, a resposta óbvia ao interlocutor seria que o interlocutor deve usar seu livre arbítrio para vir a Deus em fé; se ele o fizesse, não seria condenado. Porém, isto é um mal-entendido. O interlocutor não pergunta por que Faraó ou os judeus não podem vir a Deus em fé; o interlocutor está perguntando por que a fé em Cristo deve ser necessária. Isto é, como pode Deus culpar o judeu por esperar estar entre o povo escolhido porque ele é judeu? – em outras palavras, porque ele era descendente de Abraão e porque ele guardava (num sentido relativo) a Lei? Como pode Deus culpar os judeus por falharem em vir à fé em Cristo, visto que a fé não era o que os judeus foram levados a esperar como critério para eleição?

Pode ser objetado que nem a questão judeu/gentio nem a fé são de contexto imediato aqui. Devemos lembrar que justificação pela fé forma a base do raciocínio de Paulo em todo o trecho de Romanos 1-8, e que Romanos 9-11 forma uma resposta estendida para o que esta doutrina significa para os judeus. Paulo está defendendo sua tese que a palavra de Deus jamais falhou, e que nem todo descendente de Israel constitui o Israel de Deus (Rm 9:6). Paulo explicitamente chega a esta conclusão de seu argumento em Romanos 9:30-32. Somente separando Rm 10-24 do contexto é que esta passagem seria interpretada primariamente em termos da eleição incondicional individual.

Paulo então responde a seu interlocutor, "Quem és tu, ó homem, para retrucar a Deus?" (Rm 9:20). Se a questão do verso 19 significar "Por que os reprovados são julgados por não terem vindo à fé?" a resposta continua insatisfatória. Mas se a questão significar "Por que as pessoas escolhidas por Deus – Israel – têm que vir à fé em Cristo?" então a resposta faz bastante sentido. Não nos cabe definir os critérios de Deus para inclusão na comunidade da aliança.

Paulo então parafraseia um trecho de Isaías 29:16 em apoio à sua recusa do interlocutor. "Pode a coisa criada dizer a quem a criou “por que me fizeste assim?"” (Rm 9:20). A seção de Isaías da qual esta paráfrase foi feita é digna de nota:

[13] Por isso o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens, aprendidos de cor; [14] portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa com este povo, sim uma obra maravilhosa e um assombro; e a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus entendidos se esconderá. [15] Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: Quem nos vê? e quem nos conhece? [16] Vós tudo perverteis! Acaso o oleiro há de ser reputado como barro, de modo que a obra diga do seu artífice: Ele não me fez; e o vaso formado diga de quem o formou: Ele não tem entendimento? {Isaías 29:13-16 Almeida Recebida}

Claramente este trecho se refere a pessoas cuja adoração a Deus é meramente pretensa, e que pensam que podem planejar e fazer o mal sem o conhecimento ou a interferência de Deus. Não apenas nesta passagem, que é diretamente citada em parte, mas de fato em todas as passagens nas quais esta ilustração barro-oleiro é usada (Is 45:1-13, 64:4-8; Jr 18:1-10) se referm a pessoas que estão debaixo de julgamento por causa de sua falsa adoração e desprezo a Deus e Sua Lei, e ou implica ou especificamente oferece restauração aos arrependidos (Is 29:17-19, 45:14,22; 64:9-12). Jeremias 18:6-10 claramente indica que o "barro" não é meramente passivo:

[1] A palavra que veio do Senhor a Jeremias, dizendo: [2] Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. [3] Desci, pois, à casa do oleiro, e eis que ele estava ocupado com a sua obra sobre as rodas. [4] Como o vaso, que ele fazia de barro, se estragou na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme pareceu bem aos seus olhos fazer. [5] Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: [6] Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel. [7] Se em qualquer tempo eu falar acerca duma nação, e acerca dum reino, para arrancar, para derribar e para destruir, [8] e se aquela nação, contra a qual falar, se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que intentava fazer-lhe. [9] E se em qualquer tempo eu falar acerca duma nação e acerca dum reino, para edificar e para plantar, [10] se ela fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que lhe intentava fazer.{Jeremias 18:1-10 Almeida Recebida}

Deus soberanamente decidiu o que fazer acerca do barro: ele resolveu responder ao barro de acordo com seu arrependimento ou obstinação. Citando a metáfora oleiro/barro em Romanos 9:20, Paulo essencialmente afirma aos judeus que Deus lidará com eles de acordo com o seu arrependimento – como Ele sempre disse que faria. O "barro" aqui na citação não se refere aos não-eleitos; se refere a Israel, que não sente ser necessário vir a Cristo. O interlocutor que acredita que Israel deveria ser salvo por causa de sua etnia é lembrado que o arrependimento sempre foi requerido para a salvação – até mesmo a do judeu. A imagem é do barro culpando sua posição sobre o oleiro, em vez de humildemente pedir para ser remoldado.

Paulo então pergunta, "Não tem o oleiro direito sobre o barro, para fazer um vaso para honra e outro para desonra?". A ofensa aqui é precisamente que Israel, que se imaginava um "vaso para honra" em comparação aos gentios, que estariam na posição de vasos de desonra. Significativamente, em 2Tm 2:20-21, Paulo indica que as escolhas de uma pessoa determinam que tipo de uso se fará delas:

[20] Ora, numa grande casa, não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns, na verdade, para uso honroso, outros, porém, para uso desonroso. [21] Se, pois, alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra. [22] Foge também das paixões da mocidade, e segue a justiça, a fé, o amor, a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. {2 Timóteo 2:20-22 Almeida Recebida}

FARAÓ (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Faraó

Faraó

Paulo reforça sua afirmação de que a doutrina de fato não implica injustiça em Deus citando Ex 33:19, em que, em referência a Moisés, Deus afirma:

Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão.{Romanos 9:15 Almeida Recebida}

Como em Romanos Paulo segue para discutir o Faraó em Êxodo, esta citação é ordinariamente entendida para primariamente implicar sua negação – que Deus tem também o direito de recusar misericórdia e compaixão a quem Ele quiser. Porém, em seu contexto original no Livro do Êxodo, Deus não faz esta afirmação para justificar Sua recusa de misericórdia a alguém, mas sim para justificar sua concessão a Moisés de mostrar-lhe Sua Glória (Ex 33:18). Isto vem do contexto mais amplo do episódio do bezerro de ouro e da destruição das primeiras Tábuas do Testemunho (Ex 32-33). A conversa de Moisés com Deus (Ex 33:12-20) aparenta revelar uma preocupação genuína de que Deus abandonaria Seu povo e que Moisés seria deixado para guiá-los por conta própria. O fato de Moisés ter que talhar o segundo o segundo par de Tábuas levou alguns especialistas a sugerir que Moisés não era totalmente indesculpável na sua resposta aos israelitas. Uma subsequente explosão de raiva impediria Moisés de adentrar a Terra Prometida. Não obstante, Deus escolheu ter misericórdia de Moisés e permiti-lo ver Sua Glória. Portanto, como Paulo nota em Rm 9:16, o favor de Deus "não depende do desejo ou esforço do homem, mas da misericórdia de Deus". Mesmo Moisés não recebeu bênçãos como resultado de seguir a Lei ou ser da descendência de Abraão. Ele foi um receptor da graça de Deus. Aqueles que esperam as bênçãos de Deus baseados em etnia ou em seguir os mandamentos divinos não poderiam se exaltar nisto, nem mesmo acima de Moisés a este respeito!

Paulo então se torna para Faraó:

Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra. {Romanos 9:17 BLIVRE}

Isto é tipicamente tomado como significando que Faraó foi posto numa posição de poder especificamente para ser destruído pelas pragas no Egito, e então significando que Deus pode, com justiça, criar pessoas para o propósito de condená-las e assim glorificar-Se a Si mesmo. Novamente, examinando-se a citação em seu contexto original nos dá outra visão:

Pois agora eu estenderei minha mão, para te ferir a ti e ao povo com pestilência; e serás tu cortado da terra.E deveras por este motivo eu te levantei, para mostrar em ti o meu poder, e que meu nome seja anunciado por toda a terra. {Êxodo 9:15-16 King James}

Em outras palavras, o ponto que o SENHOR levanta em Faraó não era que Ele iria destruir Faraó para mostrar Seu poder, mas que Ele não havia ainda destruído Faraó, a fim de demonstrar Seu poder. A nota de margem da Bíblia NIV captura este sentido perfeitamente – o poder de Deus fora demonstrado precisamente para poupar Faraó e não para destruir o Egito mais rapidamente. 1 O contexto maior, Ex 13:17, coloca esta afirmação em um de vários apelos a Faraó para que deixe Israel ir embora, ou então outra praga virá, e especificamente acusa Faraó pela sua própria obstinação em recusar o povo a ir.

Portanto, quando Paulo em Romanos 9 chega à conclusão de que "Deus tem misericórdia de quem Ele quer ter misericórdia, e ele endurece a quem quer endurecer" (Rm 9:18), tipicamente se entende que Faraó é o exemplo de Deus de endurecimento. De fato, como a citação demonstra, Faraó foi tanto um exemplo de misericórdia quanto de endurecimento de Deus. Deus é misericordioso com Faraó até certo ponto, em que Ele não destrói o Egito imediatamente, mas adverte o Faraó através das pragas. Ele também, como sabemos, endureceu Faraó também, apesar de se afirmar que Faraó endureceu a si mesmo.

Mas o que fazer do endurecimento de Faraó por Deus? Paulo não cita passagem alguma referente diretamente ao endurecimento de Faraó, nem explica como se dá tal endurecimento, apesar de claramente se referir a ele. Em Êxodo, o endurecimento do coração de Faraó é expresso de quatro maneiras: o Senhor profetiza que Ele endurecerá o coração de Faraó (Ex 4:21; 7:3; 14:4); o endurecimento é citado passivamente, sem um sujeito expresso ("O coração de Faraó foi endurecido": Ex 7:13,22; 8:19; 9:35); é relatado que Faraó endureceu seu próprio coração (Ex 8:15,32; 9:34); e o Senhor endurece o coração de Faraó (Ex 9:12,10:1,20,27; 11:10; 14:8). Em geral, o endurecimento é expresso passivamente ou atribuído a Faraó nas primeiras pragas, e atribuído mais frequentemente à ação direta do Senhor nas pragas seguintes. Uma maneira de olhar para este endurecimento, portanto, é que Faraó incorre em julgamento sobre si mesmo ao endurecer seu próprio coração inicialmente, e depois ele fora endurecido pelo Senhor, para mostrar o poder de Deus. O Senhor, certamente, já sabia o que iria acontecer, e pré-alertou Moisés deste fato.

Outra maneira de olhar a este endurecimento é reconhecendo vários tipos de causação. O que o Senhor realmente faz é confrontar Faraó por intermédio de Moisés e enviando as pragas. O que Faraó faz é responder recusando a demanda de Moisés; em outras palavras, endurecendo seu coração. Faraó portanto endurece seu próprio coração, no sentido em que ele mesmo escolhe responder assim; o Senhor endurece o coração de Faraó, no sentido de lhe fornecer o ímpeto para Faraó responder daquela maneira. Do mesmo modo, podemos dizer que uma pessoa nos irritou, mas de fato aquela pessoa meramente forneceu o ímpeto para que nos tornássemos agressivos; fomos nós que respondemos em ira.

De todo modo, não tem como imaginar que Deus forçou Faraó a endurecer seu coração à parte dele mesmo; em outras palavras, que Deus fez Faraó endurecer seu coração quando ele de outra maneira não havia feito. Qualquer pessoa concordará que Faraó era culpado pelo seu próprio endurecimento, não importando se ele era predestinado ou não. O fato de Deus "endurecer a quem ele quer" não anula o fato de que aqueles a quem Ele endurece, também se endurecem a si mesmos. Em outras palavras, somos informados que Deus endurece a quem lhe apraz, mas não em que base ele endurece alguns e não a outros.

Esta discussão sobre o endurecimento de Faraó se torna relevante na interpretação de Romanos 9 quando examinamos o verso a seguir: "Um de vocês me dirá, Então por que Deus ainda nos culpa? Pois quem tem resistido à sua vontade?" (Rm 9:19). Tipicamente, o entendimento deste verso é ver Faraó, como o típico não-eleito, sendo endurecido pelo Senhor, não obstante responsabilizado por Deus, e ver o hipotético interlocutor questionando a justiça desta situação. "Como pode Deus responsabilizar Faraó", o interlocutor se pergunta, "ou por extensão, qualquer não-eleito, quando Ele Mesmo predestinou tal resposta?". Portanto, Então, a típica interpretação vê o interlocutor como espelhando precisamente a posição arminiana (veja, por exemplo, Institutes 3.22.8)

Esta interpretação, porém, faz o hipotético interlocutor identificar-se muito fortemente com Faraó. (A NIV reconhece este problema fazendo o objeto do ódio do Senhor "nós", apesar de o grego não prover tal referência.) O interlocutor não tem nenhum interesse em saber se Deus tratou Faraó com justiça! Ele vê, isto sim, o ponto que Paulo está fazendo com relação ao Israel étnico. Deus não é injusto (Rm 9:14) em escolher gentios que tenham fé, ao contrário dos judeus que tentam manter a Lei, porque Deus "tem misericórdia de quem Ele quer e endurece quem Ele quer" (Rm 9:18). Se Deus quiser ter misericórdia daqueles que vêm a Ele pela fé, e endurecer aos que não vêm, não levando em conta sua etnia ou obediência à Lei, isto é assunto de Deus. O ponto de Paulo acerca de Faraó não é que Deus teve misericórdia de Moisés e reprovou Faraó, o que facilmente encaixaria com o entendimento natural de um judeu; o ponto é que Deus tem todo o direito de definir soberanamente os critérios de sua misericórdia ou endurecimento.


1

Como na Septuaginta, dietarathas, mantido ou preservado. Rm 9:17 usa exegeiro, levantar, mas no senso de despertar do sono ou sendo incitado. Não significa algo como "levantado a uma posição de poder". A única ocorrência além desta no Novo Testamento é 1Co 6:14, referente à ressurreição dos crentes.

INDIVÍDUOS OU NAÇÕES? (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Indivíduos Ou Nações?


E o que fazer com o verso "Amei Jacó, odiei Esaú" (Rm 9:13 citando Ml 1:2,3)? Novamente, a fonte da citação revela claramente que são as nações as referenciadas, e não os indivíduos Jacó e Esaú. O ponto da comparação é a natureza da terra que fora dada às duas nações. Deus deu preferência a Jacó na terra que Ele entregou a Israel. Malaquias passa a discutir o fato que Edom chegou sob o julgamento de tal forma que ela jamais seria capaz de reconstruir sua terra; mas esta foi uma conclusão premeditada desde antes de Jacó e Esaú nascerem? Não parece ser este o caso. Deuteronômio 2:4-6 sugere na verdade o oposto disto. Deus não permitiu aos israelitas atacar Edom ou tomar qualquer parte de sua terra, afirmando que "Eu tenho dado a Esaú as colinas de Seir como sua possessão. Vocês os pagarão em prata pela comida e água que consumirem". Isto dificilmente seria consistente com um povo "odiado por Deus".

É mais provável que "amar" e "odiar" em Malaquias 1 e Romanos 9 devem ser tomados meramente em termos de preferência, bem como a afirmativa de Jesus em Lucas 14:26:
Se alguém vier a mim, e não odiar seu pai, e mãe, e esposa, e filhos, e irmãos, e irmãs, sim, e sua própria vida também, ele não pode ser meu discípulo.{Lucas 14:26 King James}

Ninguém seria capaz de imaginar que Jesus realmente esteja chamando seus discípulos a odiar seus familiares em termos absolutos, mas meramente escolher a Ele em preferência de seus familiares. Deus simplesmente preferiu Jacó a Esaú, tanto em termos da terra recebida pelos seus respectivos descendentes, quanto em termos da linha de sucessão da nação da aliança.

Se alguém quiser argumentar que "Amei Jacó e odiei Esaú" se deve a eleição para salvação, este deve lidar com o fato de que a primeira vez que esta citação é feita, não é em Gênesis, mas em Malaquias. O ponto de Deus não deve ser que todo o Israel dos tempos de Malaquias havia sido salvo! De fato, Deus acusara Israel pelo resto de Malaquias especificamente porque eles estavam sendo infiéis à aliança e arruinaram a fé em Deus de muitas maneiras. Em vez de ser uma agradável garantia do favor de Deus, a assertiva "Amei Jacó mas odiei Esaú" é parte da acusação de Deus – que ainda que Deus tenha favorecido Israel, não obstante Israel vinha sendo infiel, e estava portanto sob julgamento.

Paulo usa estas citações em Romanos 9 outra vez para se opor aos judeus que poderiam dizer que se o Evangelho de Paulo estivesse correto então "a Palavra de Deus falhou" (Rm 9:6). Sua resposta a estes é que Deus jamais fez promessas incondicionais, baseadas em "obras" ou etnia, que eles poderiam reivindicar. Deus soberanamente escolheu Isaque em vez de Ismael, e soberanamente escolheu Jacó a Esaú; e portanto, Ele pode soberanamente escolher na base da fé em Cristo, em oposição a obras da Lei ou etnia.

Para o hipotético interlocutor judeu, é claro, a aparente mudança de Deus (de Lei e etnia para fé como critério de eleição) aparentemente seria injusto (Rm 9:14). Note, a propósito, que a presente interpretação do argumento de Paulo faz todo o sentido para a sensação de injustiça do interlocutor hipotético. Nenhum judeu veria injustiça na eleição gratuita de Isaque em vez de Ismael ou de Jacó em vez de Esaú como indivíduos. A única coisa acerca do argumento que os faria ver Deus como injusto é que "nem todos os descendentes de Israel são Israel" (Rm 9:6), e para Paulo, é claro, que era um descendente verdadeiro de Abraão a segui-lo pela fé (Rm 4:11-12, Gl 3:7-8).

JACÓ E ESAÚ (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Jacó e Esaú


Para o caso de o dito interlocutor judeu hipotético argumente que Isaque era o filho legítimo em oposição a Ismael, filho da escrava, Paulo desce mais um nível na árvore genealógica para encontrar um exemplo mais convincente, o de Jacó e Esaú (Rm 9:10-13). Eles têm os mesmos pais biológicos, e até mesmo nasceram ao mesmo tempo como gêmeos. A única primazia natural que um teria um teria sobre o outro seria o direito de nascimento, que acabou por ser de Esaú. Mesmo assim, antes de eles nascerem, foi dito a Rebeca que "o mais velho serviria o mais moço" (Rm 9:12 citando Gn 25:23). Paulo chega a afirmar que a razão de Deus ter dito a Rebeca foi "a fim de o propósito divino acerca da eleição ficasse firme" (Rm 9:11). Certamente esta é uma clara referência a uma eleição individual incondicional.

Muitos arminianos escolhem neste ponto inserir o pré-conhecimento de Deus como chave para entender esta passagem; isto é, apesar de ter sido "antes que os gêmeos fizessem qualquer coisa boa ou má" (Rm 9:11), Deus ainda os julgaria com base do que Ele saberia que eles fariam futuramente. Isto claramente vai contra a intenção da passagem. Paulo certamente exclui o mérito pessoal da consideração da eleição de Jacó e Esaú. Tal eleição "não foi por obras, mas pelo que chama". Deus era perfeitamente livre para escolher entre Jacó e Esaú, e escolheu Jacó livremente.

Porém, novamente, a escolha não envolve eleição individual para salvação ou danação, mas sim a linhagem pela qual os filhos da aliança viriam. Gênesis 25:23, de onde Paulo cita, claramente se refere a nações, não indivíduos:
E o SENHOR disse a ela, Duas nações há em seu ventre, e dois tipos de povos sairão de suas entranhas; e um povo será mais forte que o outro; e o mais velho servirá o mais moço. {Genesis 25:23 King James}

ISAQUE E JACÓ (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Isaque e Jacó


Em Romanos 9:7, Paulo cita Gn 21:12 para explicar que, mesmo antes de Isaque nascer, Deus havia determinado que a descendência de Abraão seria "contada" a partir de Isaque – em outras palavras, o povo da aliança passaria pela linhagem de Isaque em vez da de Ismael. O contexto original da passagem, incidentalmente, deixa claro que não apenas Isaque seria escolhido, mas que Ismael seria rejeitado em favor de Isaque. Ainda, Deus deixa claro que Ismael seria rejeitado por Abraão, tal que a linha de sucessão da aliança é claramente por Isaque; não obstante, Ele assegura a Abraão no verso seguinte (Gn 21:13) que "do filho da serva farei também grande nação, porque ele é sua descendência". Nos versos seguintes lemos que "Deus ouviu o garoto [Ismael] chorando... 'Dele farei grade nação'... Deus estava com o garoto enquanto ele crescia" (Gn 21:17-20). Em outras palavras, Deus tinha um plano positivo para Ismael e seus descendentes, bem como para Isaque e seus descendentes; é apenas em relação a ser membro da nação da aliança que Ismael fora rejeitado.

Paulo, significativamente, interpreta a citação como significando que "não são os filhos naturais os filhos de Deus, mas os filhos da promessa que são contados como descendência de Abraão" (Rm 9:8). Ele sutilmente faz aqui o que fica mais evidente em Gálatas 4:21-23: ele identifica o Israel étnico com os filhos de Agar, em oposição aos de Sara. Desde que o Israel étnico dependia da descendência natural de Abraão, eles eram análogos a Ismael, que fora descendente de Abraão (sem mencionar a primogenitura) de forma puramente natural. Os cristãos, confiando que "aqueles que creem são filhos de Abraão" (Gl 3:7), são análogos a Isaque, o filho da promessa. Em Romanos 9:8, Paulo cita Gênesis 18:10,14 para estabelecer que a promessa de fato ocorrera antes da concepção de Isaque.

O uso de Isaque e Ismael por Paulo, então, não tem como intenção ser uma afirmação sobre sua eleição eterna individual, nem ser um caso típico de eleição e reprovação. Ele de fato estabelece que o povo judeu não tem razão alguma em confiar na descendência de Abraão para garantir sua inclusão na aliança. Se eles pudessem, os descendentes de Ismael teriam tanto direito a reivindicar as promessas de Deus quanto os descendentes de Isaque.

INTRODUÇÃO (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Introdução


Romanos 9 é geralmente citado como um dos mais claros exemplos escriturísticos na doutrina reformada da eleição individual: ela discute a escolha soberana de Deus de Isaque em preferência a Ismael e Jacó em vez de Esaú, sem levar em conta qualquer mérito do escolhido ou demérito dos não escolhidos. Depois é contra-atacado ser a objeção arminiana que a eleição incondicional parece injusta para nosso senso humano de justiça, e usa-se Faraó como exemplo de alguém que Deus 'levantou' para o expresso propósito de tornar-se uma demonstração do poder de Deus. Deus suporta com muita paciência esses 'objetos de ira' a fim de glorificar-se ante aos 'objetos de sua misericórdia', ou seja, os eleitos (veja Agostinho, "To Prosper and Hilary" 14; Calvino, Institutes 3.22.4-6).

Eu afirmaria que esta interpretação ignora o contexto maior de Romanos 9-11, cujo tema principal é lutar com as implicações do Evangelho para a nação de Israel. Ele também ignora os contextos das citações de Paulo do Antigo Testamento, que quando vistos sob uma perspectiva correta, lançam uma luz diferente nos argumentos de Paulo. Paulo está lutando contra o fato de que Deus tenha feito certas promessas nas Escrituras concernentes a Israel, muitas das quais ele vê como cumpridas em e por intermédio de Jesus Cristo. Porém Israel como um todo não veio a Cristo. O que isto significa para Israel, para a veracidade da Escritura, e para o Evangelho de Paulo? Estas questões dominam a mente de Paulo em Romanos 9-11, e suas assertivas sobre eleição devem ser analisadas em termos destas questões.

Romanos 9:1 faz uma clara ruptura com o que vinha acontecendo antes, e ainda os capítulos que se seguem são intimamente relacionados com os que o precedem. Paulo tem demonstrado em Romanos 1-8 a queda da humanidade (tanto judeus como gentios), justificação não por "obras da lei" (ergon nomou, Rm 3:20) mas sim pela "fé em Jesus Cristo" (pisteos Iesou Christou, Rm 3:22), Abraão como um exemplo de justificação pela fé, e as implicações práticas da justificação pela fé. O argumento teórico de Paulo é de fato bem envolvido no final do capítulo 8, exceto por estabelecer a relação entre sua doutrina de justificação pela fé em Cristo e o relacionamento histórico que Deus tem tido com o Israel étnico. Ainda que Paulo represente a justificação pela fé não como novidade mas como algo que começara com Abraão, isto não responde a questão de por que Deus havia relacionado a seu povo Israel primariamente na base de sua descendência por Abraão e de sua guarda da Lei. A Escritura deixa claro que os israelitas se viam a si mesmos como relacionando-se com Deus na base destas duas coisas (descendência de Abraão: Gn 26:24, Dt 4:37, Mt 3:9, Lc 1:72-74; mantendo a Lei: Ex 20:6; Lv 26:3; 1Rs 9:4-5; Ne 1:9; Dn 9:4; Mt 19:17; At 15:5). O povo judeu, que não estava vindo em grande número a Cristo, poderia muito bem argumentar que se a doutrina de Paulo sobre a justificação pela fé fosse verdade, então Deus essencialmente quebrara Suas promessas com Israel. Se Israel vê a inclusão na aliança como baseada na descendência de Abraão e na manutenção da Lei, então como Deus poderia voltar atrás e dizer "não, inclusão na aliança não é baseada em descendência de Abraão nem em manter a Lei, mas sim na fé em Cristo"? Parece-lhes que a Palavra de Deus havia falhado (Rm 6), que é o que Paulo se esforça na disputa em Romanos 9-11.

Em resumo, o argumento de Paulo se inicia atacando as duas hipóteses que haviam sido feitas sobre o relacionamento de Deus para o Seu povo. A linha de argumentação de Romanos 9-11 tem por finalidade responder à acusação específica de que, se o Evangelho de Paulo fosse verdadeiro então a Palavra de Deus haveria falhado acerca de Israel. Muito da interpretação tradicional desta passagem parece manter essa ênfase em mente apenas em uns poucos versos, mas de fato esta acusação é a posição primária contra a qual Paulo está escrevendo ao longo destes três capítulos. É a posição essencial do "interlocutor hipotético" que Paulo invoca em Rm 9:19-20, e é implicada em uma série de outros versos (por exemplo, Rm 9:6,16,32). No capítulo 3, Paulo já havia demolido a possível objeção de que os judeus podem confiar na guarda da Lei; porém, os judeus poderiam ainda confiar na descendência de Abraão como indicativo de sua inclusão na comunidade da aliança. Após isto tudo, as promessas do Antigo Testamento relacionadas à restauração de Israel não estão subordinadas à perfeita guarda da Lei; em alguns casos, aparenta que a adesão à Lei é na verdade uma das promessas a serem cumpridas (p.ex. Jr 31:33). Então se Paulo afirma que a justificação é pela fé em Cristo, e se este padrão acaba por excluir a maioria dos judeus, os que não vieram à fé em Cristo, então parece que as promessas de Deus a Israel são vazias.

A resposta de Paulo é simplesmente para demonstrar que Deus nunca escolheu descendentes em Abraão, meramente por descendência física, para inclusão na comunidade da aliança. Isto é claro porque nem todos os descendentes de Abraão foram incluídos, mas apenas os descendentes de Isaque e depois os de Jacó. Em outras palavras, o "atrito" (se nos for permitido chamar assim) que ocorre entre as gerações de Isaque e Jacó não para aqui, mas continua através descendentes de Israel. É neste sentido que "nem todos os descendentes de Israel são Israel" (Rm 9:6)